VIDA E MORTE NO REINO VEGETAL

Nas matas ao redor da famosa fazenda brasileira do Barão de Langsdorff, estudiosos europeus viram um reflexo da luta pela sobrevivência.
Hoje quem visita as ruínas da casa do Barão Langsdorff, custa a acreditar que por ali passaram viajantes famosos como Saint-Hilaire, Spix, Martius e Rugendas. Foi ao pé da Serra da Estrela(Magé- Estado do Rio) que o então Cônsul- Geral da Rússia no Brasil estabeleceu em 1816, uma fazenda experimental que denominou Mandioca. Onde podia se avistar a Serra do Mar. Nas encostas das montanhas o clima já era ameno e os viajantes começavam a perceber a variedade das espécies da flortesta atlântica.
O naturalista e diplomata Georg Heinrich von Langsdorff, original do Hessen renano(atual Alemanha), foi o chefe de uma importante expedição pelo Brasil, patrocinada pelo czar russo Alexandre I, realizada entre 1822 e 1829. Rumo ao interior, o Cônsul e seus companheiros partiram de Porto Feliz, em São Paulo, e seguiram por rios e por terra até Belém, de onde continuaram até o Rio de Janeiro, por mar.
Apesar dos resultados da expedição Langsdorff só terem sido reconhecidos recentemente, a presença do cônsul marcou a paisagem cultural e científica brasileira na primeira metade do século XIX A Fazenda da Mandioca se tornou para muitos viajantes a porta de entrada para a floresta, num contato que começava na própria cidade do Rio de Janeiro, em lugares como o Corcovado. O encantamento dos botânicos, no entanto, adquiria todo o seu vigor quando deixavam a Corte, tomavam uma embarcação até o Porto da Estrela, no rio Inhomirim, ao fundo a Baía de Guranabara, também em Magé.
Langsdorff costumava realizar passeios pelas proximidades da Fazenda da Mandioca, muitas vezes acompanhado de naturalistas e artistas. Ela virou ponto de referencia obrigatório para viajantes que visitavam a região serrana ou que faziam o caminho de Minas. Foi o caso do suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz(zoólogo e geólogo) acompanhado de sua esposa Elizabeth, do francês Alcide d’Orbigny(paleontólogo) e do alemão Hermann Burmeister( naturalista). Este último explicou em seu diário de viagens(1852) o caráter da sociabilidade das plantas que viu nos arredores de Nova Friburgo. Relatou que é raro encontrar espécies que se apresentem em grupos. Em carta a um amigo, datada de agosto de 1817, o barão teceu o seguinte comentário: “Não lhe parece um país encantado? Meu Deus que parte maravilhosa é esta do mundo para as formas e feições tão diversas, novas e insólitas? Por que ela é aqui tão extravagante na configuração e na formação interna das flores e folhas?"
O botânico Auguste de Saint-Hilaire sublinha a variedade da vegetação tropical em seu livro “Voyage dans lês provinces de Rio de Janeiro et Minas Gerais(1830), onde faz o seguinte comentário: “Nada aqui lembra a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros, cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais imensos, que pertencem às famílias distantes misturam seus galhos e confundem sua folhagem”
O famoso botânico Karl Phillipp von Martius conheceu Langsdorff e excursionou com ele pelos arredores da Fazenda da Mandioca. Ele foi provavelmente o mais brilhante viajante –naturalista que veio ao Brasil no século XIX. Além das suas classificações precisas, das coleções científicas e de seu trabalho em antropologia, descreveu com exatidão diversas fisionomias típicas do Brasil. O primeiro volume de sua Flora Brasiliensis(1840) contém 59 pranchas que buscam retratar a variedade da vegetação e do relevo do Brasil. Martius teve a oportunidade de passar os meses de julho e agosto de 1817 na propriedade de Langsdorff em companhia dos naturalistas Spix e Mikan e do pintor Thomas Ender. O cônsul os acompanhou em diversos passeios para coleta de plantas e animais. Todos se encantaram com a beleza da região.
A percepção da dinâmica da natureza, da luta entre indivíduos pela sobrevivência, presente na obra de Martius, seria algumas décadas depois, um dos temas mais importantes para as reflexões darwinistas, a partir da publicação de "A origem das espécies", em 1859.
O Brasil e as redondezas da Fazenda da Mandioca foram o palco onde diversos naturalistas puderam refletir sobre as harmonias e desarmonias da natureza, consolidando e desenvolvendo teorias e práticas que estão na origem dos saberes atuais sobre o mundo natural. A casa do barão de Langangdorff está definitivamente incorporada às fisionomias da mata atlântica, mesmo que só em nossa memória.(Lorelai Kury – Revista Nossa História)
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